Tenho pedido aos colaboradores desse blog para evitarem notas com mais de 12 linhas. Entretanto, esta que publico aqui, preciso que seja bem contextualizada, porque proponho uma reflexão muito séria para todo itabirano que planeja criar sua família aqui, com a qualidade de vida que todos merecemos. Tire um tempinho, leia e reflita comigo, que valerá a pena. Vamos lá...
No ano passado, fui contratado pela Vale para gravar uma reunião com a comunidade de Morro Vermelho (Caeté), quando foi apresentado o relatório ambiental da região que será impactada com a implantação do Projeto Apolo, para extração de minério de ferro na divisa do município com Santa Bárbara e Rio Acima. Chamaram-me a atenção a lisura e o profissionalismo dos técnicos da mineradora. Fizeram um retrato bem fiel da situação atual, dos futuros impactos e das propostas de compensações, para que a comunidade tivesse a oportunidade de debater e defender, previamente, o meio ambiente onde vivem e a coletividade. Ao todo, gravamos reuniões iguais em quase uma dezena de outras comunidades a serem impactadas, conforme prevê a lei.
Só que, em Morro Vermelho, assim que terminaram as apresentações e discussões, foi servido um buffet com um café repleto de iguarias, com salgados finos, sucos e biscoitos. De repente, uma senhorinha mais humilde tirou da bolsa uma sacola plástica, dessas usadas para lixo, a abriu com uma das mãos e, usando o outro braço como um rodo, rapou boa parte dos salgados de uma das mesas para dentro da sacola, se desculpando que queria levar uns salgadinhos para a filha que não pôde comparecer. Rapidamente, outros convidados começaram, também, a encher os bolsos, surgiram outras sacolas plásticas, braços defendendo pratos, num alvoroço medonho. Assustada, a gerente do buffet, ao ver começar a sumir taças e talheres, ordenou que seus garçons defendesse seus pertences:
- Esperem aí! As taças, copos, vasilhames e talheres não! - gritou ela desesperada.
Quando dei conta, uns rapazinhos meteram as mãos nos cabos de energia da minha empresa, pretendendo saquear os refletores de luz da filmagem, correndo risco inclusive de se queimarem gravemente.
E aí, você deve estar pensando... e o que nós itabiranos temos a ver com isso?
Pois é... Andei relembrando esse episódio e comparando os fatos. A Vale, de forma semelhante, tem investido em obras na cidade e contribui com a maior parte da arrecadação. Tal como fez em Morro Vermelho, costuma reunir com comunidades locais, apresenta relatórios, participou e foi obrigada a cumprir com condicionantes ambientais e tantas outras iniciativas mais, sendo a mais recente o anúncio de investimento de 2,68 bilhões de reais numa nova usina de recuperação de minério no município.
Se ainda analisarmos a situação político-administrativa itabirana, de uns 10 ou mais anos para cá, praticamente, não vimos investimentos arcados com recursos próprios, proporcionais à altíssima arrecadação. E olhem que as receitas daqui, só no último mandato, chegaram perto de 1 bilhão de reais! Coincidentemente, nunca se viu, nem aqui, nem em qualquer outra cidade da região, alguns ex-secretários (e parentes deles), em curtíssimo tempo, passarem a ostentar riquezas e patrimônios, como se tem ventilado por aí. Em cascata, outra observação que me lembrei são os parques Nova Vista e Belacamp construídos pela mineradora para a cidade: em pouco tempo foram saqueados e completamente depredados. Estranhamente, outras reações que observei foi a recente composição do chamado grupão com, nada menos que, 18 (ou 19?) partidos e a posterior contratação sem fim de milhares de pessoas para pequenos cargos. Ou seja, essa imensa arrecadação parece contemplar uma dúzia de novos milionários e milhares de seguidores com as raspas dos pratos, em detrimento de investimentos sólidos, de preparar o município para a sobrevivência após a exaustação mineral, ou de contarmos com saúde, educação e cultura à altura da inédita receita. O Hospital Nossa Senhora das Dores, segundo comentários na cidade, está pendurado numa dívida de 10 milhões de reais!
Se nos compararmos com o povo de Morro Vermelho, quais semelhanças e diferenças temos com eles? Na minha modesta opinião, parece que, de igual forma, praticamos o mesmo instinto animal de defender os pratos para nossas proles, no primeiro momento que nos vimos ameaçados pela esperteza dos outros, mas a diferença se fez patente na proporção dos saques.
Será que é isso mesmo ou divaguei feio?